Rio de Janeiro.
2017. Aquela primavera teria um sabor diferente. Seria um doce sabor de vida
nova, regada a lembranças que ainda a atormentavam. As ilusões perdidas, os
laços jogados ao vento, os arrependimentos, a naturalidade do sorriso...
Diversas flechas ainda atravessavam o coração daquela doce mulher, que outrora necessitou
crescer, partir, alçar seu próprio voo, se reencontrar e se reinventar.
Agora, mais dona
de si mesma, percebia-se disposta a mais, nada a fazia arrepender-se, mas muito
ainda a ligava a importantes raízes: e era isso que ela queria recuperar.
Chegando à
antiga rua, no Flamengo, imóvel permaneceu em seu carro por mais de 15 minutos,
respirou fundo e, ao descer, retirou os óculos escuros para contemplar a
paisagem sem as pressas da juventude. Pouco havia mudado além das fachadas dos
prédios de luxo, inclusive o de sua infância. Aproximou-se da portaria. Sorridente
e imponente, solicitou interfonar a seu antigo apartamento. Ainda que
boquiaberto com a elegância da visitante, o jovem porteiro buscou fôlego para
perguntar quem desejava. Respondeu firme, embora nervosa:
- Diga que é a
Beatriz.
Uma mescla
confusa de sentimentos atingiu seu irmão mais novo: o amor, a alegria, o susto,
a indignação.
Gustavo ainda
guardava seu espírito jovial, seu ar de aprendizagem e o coração palpitante de um
sonhador, mesmo com as decepções e sequentes perdas. Era lindo e gratificante estar
com a irmã novamente, mas era difícil disfarçar a dor, acumulada por anos, dos
choros não compartilhados, do colo não dado e das palavras não ditas. Mas, ela
estava ali novamente. Não era o momento de pensar nisso. Ele só queria
abraçá-la, ainda que precisasse respirar fundo, antes de dizer tremulamente “Pode
deixar subir”.
Foi necessário
pedir à garota de programa que saísse pelos fundos. Aquela campainha soou
diferente naquele dia, o caminho até a porta pareceu mais longo e o coração
acelerado como há muito não se via. Nenhuma palavra foi dita. Foram longos minutos de
abraço e lágrimas, quebrados apenas com um discreto “Como é que cê tá?”, com o
sotaque carioca nunca perdido.
- Tô bem, Bia.
Nem tudo perfeito, mas sempre numa boa. Tanta saudade de você! Por onde você
andou esse tempo todo? Você acha mesmo que as suas mensagens de vez em quando
iam me fazer não ficar preocupado?
- Ei, ei, ei,
calma... ‘Vamo’ matar essa saudade primeiro, antes das cobranças?
Como há muito
tempo, os risos não eram tão sinceros! Era como se houvesse séculos de
histórias para se contar, mas nada se comparasse à intensidade daquele momento.
- Você não mudou
nada mesmo, né Bia?
Ela respirou,
olhou pro nada e prontamente, com seu sorriso de canto, olhou fundo nos olhos
do rapaz. E disse:
- Mudei um
pouco, talvez... Não sei. Se mudei, foi bem pouco. Mas, foi onde precisava.
Adentraram até a
sala de vídeo, abraçados, sorridentes... O café da manhã caprichado logo foi
trazido, havia muito que compartilhar e muito a se ser explicado. Ele tinha uma mágoa a ser superada. Mas, tudo
precisava ser a seu tempo. Ela tinha muito mais contas a acertar.