terça-feira, 27 de setembro de 2016

Capítulo 1: Laços

Rio de Janeiro. 2017. Aquela primavera teria um sabor diferente. Seria um doce sabor de vida nova, regada a lembranças que ainda a atormentavam. As ilusões perdidas, os laços jogados ao vento, os arrependimentos, a naturalidade do sorriso... Diversas flechas ainda atravessavam o coração daquela doce mulher, que outrora necessitou crescer, partir, alçar seu próprio voo, se reencontrar e se reinventar.
Agora, mais dona de si mesma, percebia-se disposta a mais, nada a fazia arrepender-se, mas muito ainda a ligava a importantes raízes: e era isso que ela queria recuperar.
Chegando à antiga rua, no Flamengo, imóvel permaneceu em seu carro por mais de 15 minutos, respirou fundo e, ao descer, retirou os óculos escuros para contemplar a paisagem sem as pressas da juventude. Pouco havia mudado além das fachadas dos prédios de luxo, inclusive o de sua infância. Aproximou-se da portaria. Sorridente e imponente, solicitou interfonar a seu antigo apartamento. Ainda que boquiaberto com a elegância da visitante, o jovem porteiro buscou fôlego para perguntar quem desejava. Respondeu firme, embora nervosa:
- Diga que é a Beatriz.
Uma mescla confusa de sentimentos atingiu seu irmão mais novo: o amor, a alegria, o susto, a indignação.
Gustavo ainda guardava seu espírito jovial, seu ar de aprendizagem e o coração palpitante de um sonhador, mesmo com as decepções e sequentes perdas. Era lindo e gratificante estar com a irmã novamente, mas era difícil disfarçar a dor, acumulada por anos, dos choros não compartilhados, do colo não dado e das palavras não ditas. Mas, ela estava ali novamente. Não era o momento de pensar nisso. Ele só queria abraçá-la, ainda que precisasse respirar fundo, antes de dizer tremulamente “Pode deixar subir”.
Foi necessário pedir à garota de programa que saísse pelos fundos. Aquela campainha soou diferente naquele dia, o caminho até a porta pareceu mais longo e o coração acelerado como há muito não se via. Nenhuma palavra foi dita. Foram longos minutos de abraço e lágrimas, quebrados apenas com um discreto “Como é que cê tá?”, com o sotaque carioca nunca perdido.
- Tô bem, Bia. Nem tudo perfeito, mas sempre numa boa. Tanta saudade de você! Por onde você andou esse tempo todo? Você acha mesmo que as suas mensagens de vez em quando iam me fazer não ficar preocupado?
- Ei, ei, ei, calma... ‘Vamo’ matar essa saudade primeiro, antes das cobranças?
Como há muito tempo, os risos não eram tão sinceros! Era como se houvesse séculos de histórias para se contar, mas nada se comparasse à intensidade daquele momento.
- Você não mudou nada mesmo, né Bia?
Ela respirou, olhou pro nada e prontamente, com seu sorriso de canto, olhou fundo nos olhos do rapaz. E disse:
- Mudei um pouco, talvez... Não sei. Se mudei, foi bem pouco. Mas, foi onde precisava.
Adentraram até a sala de vídeo, abraçados, sorridentes... O café da manhã caprichado logo foi trazido, havia muito que compartilhar e muito a se ser explicado. Ele tinha uma mágoa a ser superada. Mas, tudo precisava ser a seu tempo. Ela tinha muito mais contas a acertar.